A qual público se destina o livro?

A qual público se destina o livro?
Photo by Drahomír Hugo Posteby-Mach / Unsplash

A maioria dos livros que discutem as principais questões da internet, publicados no Brasil, é escrita para especialistas ou acadêmicos. Somos leitores gratos dessas obras, mas elas infelizmente não alcançam um público mais geral, que circule fora da academia.

Nossa maior preocupação ao escrever "A internet não precisa ser assim" era que ele fosse compreensível pela maioria dos interessados – pessoas que, independentemente de sua área de atuação, sejam curiosas e gostem de estar bem informadas. Somos jornalistas, ambos. Quem consegue acompanhar uma boa reportagem de jornal conseguirá ler nosso livro.

Escrevo sobre tecnologia há alguns anos, mas não do jeito como se escreve sobre tecnologia em sites comerciais. Sempre fugi de escrever sobre quantas câmeras tem um novo smartphone; quando escrevia para um jornal, preferia escrever sobre o papel da câmera do celular na acessibilidade para idosos, por exemplo.

No final de 2025, tive a honra de ver um texto meu ser usado como base de uma questão de língua portuguesa no vestibular da Fuvest, para a USP. Era uma questão dissertativa, onde a banca perguntava que elementos daquele texto de divulgação científica o tornavam eficiente para comunicar ideias ao leitorado. Na solução proposta pela Fuvest, a banca listava algumas dessas características:

O divulgador utiliza no texto diversos recursos de recontextualização e didatização. Dentre eles, podem ser destacados: 1) a analogia, aproximando a realidade mais concreta dos leitores ao discurso científico, como ocorre em “A finalidade é identificá- lo na próxima visita, e com isso eles viram uma espécie de diário de bordo de tudo o que você fez no site”; 2) o diálogo direto com o leitor, em segunda pessoa, simulando uma conversação, diferentemente do tom geralmente impessoal de artigos científicos, como em “Eles podem ser do próprio site acessado: ao retornar a um site de notícias, os links em que você já clicou aparecem roxos em vez de azuis”; 3) uso de um registro de linguagem mais cotidiano, evitando termos muito especializados, como em “Cookies são pequenos arquivos que os sites despejam no seu navegador quando você visita uma página” ou “Parte das pessoas que faz ideia disso acaba embarcando na ideia falaciosa de que ‘todos os nossos dados já são públicos’”; 4) título chamativo para captar a atenção do leitor, por envolvê-lo na questão em discussão – “Como eu, você e todos nós estamos nos transformando em uma nuvem de dados - e isto não é nada bom”; dentre outras possibilidades.

Nunca havia pensado de maneira tão formalizada sobre os elementos daquele estilo, mas de fato todos eles estavam lá. Ao escrever o livro, porém, foi essa a linguagem que procuramos manter o tempo inteiro. Um tom de conversa, muitas analogias, o mínimo possível de vocabulário especializado, referências constantes ao cotidiano. Um toque de humor também ajuda: acredito que abrir um sorriso também abre os ouvidos.

Este livro, então, foi feito para ser lido por estudantes, professores, advogados, contadores, químicos, eletricistas, dentistas – e, sobretudo, por você.